O negócio atual sempre tenta matar o próximo: como a ambidestria organizacional protege o presente sem abandonar o futuro
Uma empresa pode estar crescendo, batendo metas e melhorando seus processos enquanto constrói o próprio gargalo.
Isso acontece quando ela encontra uma fórmula que funciona e passa a organizar toda a sua estrutura para repeti-la.
A operação ganha previsibilidade. Os custos ficam mais controlados. As metas melhoram. Os gestores aprendem a extrair mais resultado dos produtos, dos processos e dos clientes que já conhecem.
Nada disso é um problema. Pelo contrário.
O risco aparece quando essa lógica passa a dominar toda a empresa: a agenda da liderança, a distribuição do orçamento, as contratações e até a forma como qualquer nova iniciativa é avaliada.
Nesse momento, o sucesso começa a trabalhar contra o futuro.
É justamente essa tensão que o conceito de ambidestria organizacional procura resolver: como continuar aperfeiçoando o negócio que paga as contas hoje sem abandonar a construção daquilo que poderá pagá-las amanhã?
O que é ambidestria organizacional?
Ambidestria organizacional é a capacidade de administrar duas necessidades ao mesmo tempo.
De um lado, a empresa precisa melhorar aquilo que já sabe fazer: ganhar produtividade, reduzir custos, aumentar margem, vender mais para os clientes atuais e tornar sua operação mais previsível.
Do outro, precisa investigar o que ainda não conhece: novos produtos, mercados, tecnologias, modelos de negócio e mudanças no comportamento dos clientes.
James March apresentou essa tensão em um trabalho clássico publicado em 1991. Ele utilizou os termos exploitation e exploration para diferenciar o aproveitamento das capacidades atuais da busca por novas possibilidades.
Em uma linguagem mais próxima da gestão, podemos pensar assim:
- Uma parte da empresa aperfeiçoa o presente.
- A outra investiga o futuro.
O problema é que essas duas atividades possuem naturezas diferentes. O negócio atual trabalha com histórico, indicadores, processos e resultados mais previsíveis. Uma iniciativa nova começa com hipóteses, dúvidas e uma boa quantidade de coisas que ainda precisam ser descobertas.
Administrar as duas da mesma forma costuma produzir um resultado bastante previsível: o presente vence.
Por que o negócio atual sempre vence a disputa?
Porque ele chega à reunião com argumentos muito melhores.
Tem clientes conhecidos, receita comprovada, margem calculável, metas estabelecidas e problemas urgentes esperando solução.
Uma iniciativa nova chega com uma hipótese.
Talvez exista demanda. Talvez determinado cliente tenha interesse. Talvez a tecnologia funcione. Talvez o modelo consiga ganhar escala.
Quando o orçamento aperta, é natural que a liderança direcione recursos para aquilo que já entrega resultado.
Quando uma pessoa precisa ser deslocada para atender um cliente importante, dificilmente ela continuará dedicada ao projeto experimental.
Quando o trimestre fica abaixo da meta, iniciativas futuras são adiadas para resolver necessidades mais imediatas.
Nenhuma dessas decisões parece absurda quando observada isoladamente. Muitas vezes, são decisões responsáveis.
O gargalo aparece quando elas se repetem até que todo projeto novo passe a depender das sobras de tempo, dinheiro e atenção da operação.
E o futuro não pode depender das sobras do presente.
O que mais me chama a atenção nessa discussão é que muitas empresas não sofrem por falta de ideias. Elas sofrem porque seu sistema de gestão não permite que as ideias sobrevivam.
A empresa diz que quer inovar, mas cobra de um produto experimental a mesma margem de um produto consolidado.
Cria uma nova unidade, mas exige retorno antes que ela tenha tempo para compreender o mercado.
Pede que os gestores pensem no futuro, mas ocupa toda a agenda deles com problemas operacionais.
Nesse cenário, o gargalo não é a eficiência.
É o desequilíbrio.
Onde o desequilíbrio aparece
Existem quatro lugares em que esse conflito costuma ficar mais visível.
Agenda
A agenda da liderança revela as prioridades reais da empresa.
Quanto tempo é dedicado à operação atual? Quanto tempo é reservado para discutir mudanças no mercado, novas ameaças, comportamentos emergentes e possíveis fontes de crescimento?
Uma organização pode falar constantemente sobre inovação e, ainda assim, dedicar todas as suas reuniões a vendas, custos, produtividade e entregas em andamento.
Quando isso acontece, o futuro virou discurso.
Recursos
Uma iniciativa nova possui orçamento, responsáveis e tempo definidos ou precisa disputar tudo isso com a operação?
Essa disputa raramente é equilibrada.
A operação apresenta necessidades concretas. O projeto novo apresenta possibilidades. Sem algum nível de proteção, a urgência sempre será mais convincente.
Proteger recursos não significa financiar iniciativas indefinidamente. Significa definir quanto a empresa está disposta a investir para testar uma hipótese e quais evidências serão utilizadas para decidir sua continuidade.
Métricas
Projetos maduros podem ser avaliados por receita, margem, produtividade, qualidade e retorno financeiro.
Uma iniciativa em fase de descoberta ainda não chegou a esse ponto.
No início, talvez seu principal resultado seja validar uma necessidade, reduzir uma incerteza ou descobrir rapidamente que determinada hipótese estava errada.
Cobrar o mesmo desempenho de negócios que estão em estágios completamente diferentes é uma das maneiras mais eficientes de matar qualquer novidade.
Isso não significa abandonar o rigor. Significa aplicar o rigor adequado a cada fase.
Poder
Quem administra o negócio atual também possui poder para interromper qualquer iniciativa que possa ameaçá-lo?
Novos negócios podem disputar orçamento, pessoas e atenção. Em alguns casos, podem até reduzir a importância de produtos existentes ou diminuir o poder de determinadas áreas.
Quando o futuro depende exclusivamente da aprovação de quem é avaliado pelo desempenho do presente, a transformação tende a encontrar resistência, mesmo que ninguém admita estar resistindo.
Agenda, recursos, métricas e poder mostram se a construção do futuro é uma prioridade verdadeira ou apenas uma boa intenção.
Ambidestria não é defender inovação a qualquer custo
Existe outro desequilíbrio possível.
Algumas empresas testam muitas ideias, abrem diversas frentes e mudam de direção constantemente, mas não conseguem transformar essas descobertas em processos, escala e resultado.
São organizações que começam bem e consolidam mal.
Têm criatividade, mas não desenvolvem disciplina operacional. Criam iniciativas, mas não constroem negócios sustentáveis.
Por isso, ambidestria não é escolher a inovação no lugar da eficiência.
Uma empresa excessivamente orientada à operação pode se tornar excelente em atender a um mercado que está perdendo relevância. Uma empresa excessivamente orientada à experimentação pode gastar recursos em uma sequência interminável de projetos que nunca amadurecem.
A organização ambidestra procura evitar os dois extremos.
Ela entende que o negócio atual precisa continuar evoluindo. É ele que sustenta a empresa, atende os clientes e financia o crescimento.
Ao mesmo tempo, reconhece que os produtos, as capacidades e os modelos responsáveis pelo sucesso de hoje não necessariamente garantirão o sucesso de amanhã.
O que o caso da IBM ensina
A IBM é frequentemente apresentada como um exemplo de ambidestria organizacional.
No final da década de 1990, a empresa percebeu que novas oportunidades estavam sendo sufocadas pelas unidades de negócio já consolidadas. Os projetos menores tinham dificuldade para disputar recursos e não conseguiam demonstrar resultados comparáveis aos das operações maduras.
Para enfrentar esse problema, a IBM criou as chamadas Emerging Business Opportunities.
Essas iniciativas recebiam acompanhamento específico da liderança, possuíam critérios próprios de avaliação e tinham espaço para amadurecer antes de serem cobradas pela mesma lógica dos negócios estabelecidos.
Entre 2000 e 2005, essas oportunidades contribuíram com mais de US$ 15 bilhões em crescimento, segundo o estudo de O'Reilly, Harreld e Tushman sobre o caso.
O mais importante não é copiar a estrutura da IBM. A maioria das empresas, especialmente as pequenas e médias, não precisa criar uma unidade separada para cada nova ideia.
A lição está no princípio: a IBM não esperou que o futuro surgisse espontaneamente nos intervalos da operação. Criou um sistema para desenvolver, acompanhar e proteger oportunidades emergentes.
Como começar a construir uma empresa ambidestra
A primeira decisão é separar claramente melhoria e descoberta.
Aprimorar uma campanha, reduzir o custo de um processo ou melhorar um produto existente são iniciativas importantes, mas pertencem à lógica de aperfeiçoamento do negócio atual.
Testar um novo mercado, desenvolver outra oferta ou experimentar um modelo diferente pertence à lógica da descoberta.
Quando essa diferença não fica clara, pequenas melhorias operacionais começam a ser chamadas de inovação, enquanto a empresa continua sem construir novas fontes de crescimento.
A segunda decisão é estabelecer critérios adequados para cada tipo de iniciativa. Projetos maduros precisam entregar desempenho. Projetos em descoberta precisam produzir aprendizado e reduzir incertezas. À medida que avançam, passam a assumir compromissos maiores de receita, margem e escala.
Também é necessário proteger algum nível de recurso. Um projeto que não possui responsável, tempo ou orçamento definido dificilmente é uma prioridade. Na prática, é apenas uma intenção que será retomada quando a operação estiver tranquila.
E a operação nunca está tranquila.
Por fim, as duas agendas precisam se encontrar na liderança. Separar atividades não significa criar dois negócios desconectados. Cabe à gestão decidir onde continuar investindo, quais hipóteses testar, quais projetos encerrar e quando uma iniciativa está pronta para deixar a fase de descoberta e ganhar escala.
Ambidestria não é um projeto da área de inovação. É uma capacidade de gestão.
Perguntas frequentes
O que é ambidestria organizacional?
Ambidestria organizacional é a capacidade de melhorar e rentabilizar o negócio atual enquanto a empresa desenvolve novas ofertas, mercados, tecnologias ou modelos de negócio.
Qual é a diferença entre ambidestria e inovação?
Inovação é a criação ou adoção de algo novo. Ambidestria é a capacidade de inovar sem abandonar a eficiência, a qualidade e os resultados da operação existente.
Como saber se o negócio atual está sufocando o futuro?
Alguns sinais são projetos novos constantemente interrompidos pela operação, falta de orçamento protegido, cobrança de retorno imediato sobre experimentos e concentração das decisões nas pessoas responsáveis pelo negócio atual.
Ambidestria significa dividir os recursos igualmente?
Não. A distribuição depende da estratégia, do mercado e do momento da empresa. O essencial é que as iniciativas futuras tenham responsáveis, critérios e recursos minimamente protegidos, em vez de dependerem apenas das sobras da operação.
Pequenas empresas também podem ser ambidestras?
Sim. Uma pequena empresa não precisa criar uma área de inovação. Pode escolher poucos experimentos, reservar tempo e orçamento para desenvolvê-los e avaliá-los de maneira diferente dos negócios já consolidados.
O futuro não pode depender das sobras do presente
Toda empresa precisa continuar melhorando aquilo que já funciona. É dessa eficiência que vêm os recursos, a confiança dos clientes e a capacidade de investir. Mas existe uma diferença entre administrar bem o negócio atual e preparar a organização para continuar relevante.
O presente tem números, histórico e urgências. O futuro começa com hipóteses. Por isso, quando os dois disputam espaço sob as mesmas regras, o presente quase sempre vence.
A ambidestria organizacional começa quando a liderança reconhece essa desigualdade e cria condições para que as duas agendas possam coexistir. Não se trata de abandonar o negócio atual em busca da próxima grande ideia. Também não se trata de manter tudo como está até que o mercado obrigue a empresa a mudar. Trata-se de operar o presente com competência enquanto se constrói, de forma intencional, aquilo que ainda poderá se tornar relevante.
O gargalo não é a eficiência. É permitir que toda a empresa seja desenhada apenas para repetir aquilo que já deu certo. Porque uma organização pode continuar crescendo, batendo metas e melhorando seus processos enquanto se torna cada vez mais eficiente em produzir o próprio passado.
Referências
- James G. March. Exploration and Exploitation in Organizational Learning. Organization Science, 1991.
- Michael L. Tushman e Charles A. O'Reilly. Ambidextrous Organizations: Managing Evolutionary and Revolutionary Change. California Management Review, 1996.
- Charles A. O'Reilly e Michael L. Tushman. Ambidexterity as a Dynamic Capability. Research in Organizational Behavior, 2008.
- Charles A. O'Reilly, J. Bruce Harreld e Michael L. Tushman. Organizational Ambidexterity: IBM and Emerging Business Opportunities. California Management Review, 2009.
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Empresário e estrategista de crescimento, criador da metodologia Gargalos Invisíveis. Sobre o Renato →
